Uma menção sobre atitude positiva

Reatividade é uma coisa irritante! Uma pessoa “reativa” pode ser tão influnte quanto uma tão aclamada “proativa”. Conviver com pessoas que se comportam dessa maneira pode ser tanto estressante para quem identifica esse traço, quanto um problema sério para quem não faz a distinção.

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Quem “apenas” reage não percebe, somente sente. Desrespeita sem perceber. Age sem autenticidade. Não faz escolhas. Não se dá conta sequer do efeito de seu próprio comportamento na realidade, que dirá dos desdobramentos. Pessoas se comportando assim são na maioria das vezes extremamente educadas. Suas condutas seguem um padrão socialmente irrepreensível, sendo aí onde fica a raiz do problema. Agir conforme o que se está habituado significa dizer que se está agindo sem pensar, sem prestar atenção. Não há problema algum em fazer algo sem pensar, mas há sim em fazer a mesma coisa sem querer.

Quem não reconhece em si ou em vários dos que convive discursos recheados de máximas como “eu sou assim”, “não posso fazer nada”, “fulano me deixa louco”, “isso jamais será aceito”, “tenho de fazer isso”, “não posso”, “Eu preciso.”, “Ah, se eu pudesse…”? Tudo isso está ligado a uma necessidade de afirmar certeza sobre uma identidade que a própria pessoa não escolheu livremente. Esse mundo moderno provoca esse tipo de coisa. Todas as observações críticas sobre mudanças descontínuas, competitividade, excesso de informações, convergência, tudo se aplica como fatores que geram pressão sobre o indivíduo. Por outro lado, não é novidade esta própria pressão em si. Basta procurar estórias interessantes como “O Espremedor de Colhões” de Charles Bukowsky, músicas como “Ouro-de-tolo” de Raul Seixas, que se pode fazer ideia do quanto esse efeito é bem antigo.

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Uma sociedade precisa de uma estrutura. Esta consiste de pessoas desempenhando tarefas. Em uma pequena tribo, caso ninguém cace, pesque, plante ou colete, todos morrem de fome. Em clãs, aldeias, cidades, metrópoles e nações, as teias são mais complexas e as necessidades vão bem além da simples alimentação e similares básicos. Ainda assim é preciso existir uma “força” que crie propensão de que cada indivíduo escolha um papel a desempenhar dentro da estrutura social. Se não houvesse nada nesse sentido, não haveria coesão social. Não haveria civilizações. Os humanos viveriam como tigres, se encontrando apenas na hora de procriar. Um tigre tem garras, presas, muita força e agilidade, faro aguçado e um sistema imunológico mauito mais potente que o de um humano. Sem competências para se comunicar razoávelmente bem e se estruturar em sociedade, o homem estaria extinto há muito tempo. Provavelmente comido por tigres e afins…

A separação em “rótulos”, reativo ou proativo, serve para simplificar o entendimento de um tipo de hábito que uma pessoa possui em relação à forma de responder aos estímulos que recebe no dia-a-dia. Ninguém pode ser classificado como totalmente proativo ou totalmente reativo. Além disso, como já se pode deduzir, há hábitos tanto bons quanto ruins. Aquele que se refere à “reatividade” diz respeito apenas a se estar viciado em executar uma rotina sem ter escolhido realizá-la. A proatividade, por outro lado, de forma alguma pretende negar um hábito, mas sim escolher conscientemente o motivo pelo qual se está o executando.

O hábito é uma forma que a evolução encontrou de tornar o cérebro mais eficiente. O mecanismo mais lento e que mais consome energia cerebral se dá no neocórtex. Nesta parte localizada sob a testa, onde simbolicamente se “segura com as mãos as idéias e experiências”, é onde o raciocínio acontece e onde são tomadas as decisões. Naturalmente, é a evolução mais recente do cérebro. Se tudo o que uma pessoa faz tivesse de passar por ali, não seria possível sequer mover um dedo sem ter de parar de respirar no processo. Tudo aquilo que se faz repetidamente acaba por ser armazenado em parte mais específica do cérebro, que cuida de processos de maneira independente. O que é hábito não precisa “ser pensado” novamete. Quem aprendeu a dirigir compreende muito bem isso. Funciona como um “piloto-automático”. Não é necessário se concentrar em cada ação, elas simplesmente fluem naturalmente. O livro o “O poder do Hábito” de Charles Dwigg explica em linguagem fácil essa dinâmica cerebral em um capítulo de título “O Loop do Hábito”, em que o caso de um senhor chamado Eugene Pauly é contado.

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A cultura oriental é muito focada neste tipo de prática. Eles consideram o efeito de se praticar este exercício uma espécie de competência, que vai bem além do mero termo “proativo”. O que os chineses denominam 功夫 não possui uma tradução oficial. O ideograma  representa a ação consistente de medir o próprio esforço, enquanto que  representa o homem amadurecido por este processo. Expressões como “excelência humana” ou “desenvolvimento humano” são informalmente utilizados para expressar tal conceito. Ora, se praticar algo com consistência torna a respectiva atividade um hábito, o próprio ato de se “fazer a escolha” sobre o que se habituar e quando utilizar o processo programado pode ser considerado um hábito em si.

A atitude por trás desta prática assume apenas dois conceitos, o de assumir responsabilidade e o de procurar pelo que ser grato. Apesar de simples, é literalmente impossível ser plenamente efetivo nestes resultados. Pode-se ser eficaz, mas no instante seguinte uma nova situação pode transformar um sábio em um tolo. A postura de aprendiz que os pensadores orientais tanto comunicam em suas obras é respectiva a isto.

Uma pessoa com sua proatividade desenvolvida, com seu 功夫 trabalhado o suficiente, é segura de si. Sendo assim, ela não tece opiniões sobre si mesma, apenas é. Jamais usa em seu discurso a expressão “eu sou assim“, mas no lugar desta usa “eu escolho e valorizo agir desta maneira, nesta situação“. Ela não diz que pode ou não pode, precisa ou não precisa fazer determinada coisa. Ela diz que escolhe ou prefere uma coisa a outra. Ela não está presa em uma ilusão determinística condicionada por medo e vergonha.

Esta ideia de atitude livre e plena não existe naturalmente, nem se perpetua sem esforço deliberado constante. Porém, é uma meta estratégica, ou objetivo último, que jamais deveria sair dos planos de qualquer um. “Entre um estímulo e uma resposta há uma oportunidade de escolha”. Ser reativo diz respeito apenas a não aproveitá-la. Nossa estrutura social ainda depende muito de transformar pessoas em “massas-de-manobra”. Porém, esse velho costume não passa de uma forma de fazer com que as pessoas sejam menos motivadas e consequentemente menos produtivas do que poderiam ser, embora agir assim facilite o controle nas relações de poder. Esta acaba sendo também uma forma de fazer com que elas sejam menos afortunadas e felizes, pois se habituam a se conformar com menos do que poderiam ser e a entregar menos que o quanto poderiam contribuir. Assumir uma atitude positiva não é nenhum “mistério dos monges chineses”, basta fazer a primeira escolha, depois jamais cessar de fazê-la. 

Page11O mestre age sem dizer nada e ensina sem dizer nada. Ele tem, mas não possui. Age, mas sem expectativas. Quando as coisas vêm, ele as deixa vir. Quando elas vão, ele as deixa ir. Quando seu trabalho está feito, ele o esquece. Assim, ele dura para sempre. (Laozi – Tao Te Ching)